No momento em que este conteúdo foi produzido, a guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel completa dois meses.
Essa informação é necessária devido à instabilidade do conflito: as repentinas mudanças de posição das partes envolvidas inviabilizam qualquer análise de curto prazo.
Mesmo se a guerra terminasse hoje – um cenário pouco provável –, para a indústria do plástico seus efeitos seriam sentidos por um tempo considerável.
“Segundo nossas estimativas, para normalizar a situação seriam necessários pelo menos seis meses, depois desse choque tão intenso observado no mercado petroquímico”, afirma o presidente do conselho da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST), José Ricardo Roriz Coelho, em entrevista ao Mundo do Plástico.
Impacto nas resinas plásticas
Na prática, a restrição ao tráfego na região pressiona o preço do petróleo e afeta diretamente a nafta petroquímica.
O preço do petróleo Brent, considerado referência mundial, saltou de US$ 70 o barril antes do conflito para US$ 114 dois meses depois – com pico de US$ 138 no início de abril.
“Houve um verdadeiro choque nos preços das resinas ao redor do mundo desde o início da guerra”, reforça Roriz. “Foram aumentos que ultrapassaram 100% dependendo da resina e local, observados globalmente, e esses aumentos refletiram automaticamente no preço da resina no mercado doméstico”.
Em análise feita pela Associação Brasileira de Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (ADIRPLAST) no final de março – um mês após o início do conflito – a alta dos petroquímicos já impactava os preços das resinas plásticas, plásticos de engenharia e filmes biorientados, inclusive no Brasil.
Para a entidade, a combinação entre restrição de oferta global e aumento dos custos de produção pressionam significativamente o mercado, e a instabilidade geopolítica tem limitado a disponibilidade de resinas e intensificado a volatilidade dos preços.
“O conflito internacional tem levado a uma restrição sem precedentes da oferta e a aumentos expressivos dos preços ao longo de toda a cadeia. As empresas brasileiras não possuem estoques suficientes para sustentar, por muito tempo, uma eventual ruptura contínua na oferta, e os efeitos dessa limitação já começam a ser sentidos no mercado”, afirmou Cecilia Vero, presidente da Adirplast.
Risco de desabastecimento
Na ocasião, a Adirplast disse observar que sinais de escassez de oferta já apareciam de forma evidente para o mês de abril, indicando um cenário ainda mais restritivo no curto prazo.
Roriz, da ABIPLAST, diz que o risco de desabastecimento é real e que há informações de limitações de pedidos e cancelamentos de compras de materiais importados. “Esse choque de preços traz também reais problemas de desbalanceamentos ao longo das cadeias produtivas”.
A Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM), em posicionamento divulgado no dia 31 de março, afirmou que não havia dados que indicassem impactos reais sobre o abastecimento de insumos químicos no Brasil, no curto prazo.
Mesmo num cenário hipotético de queda drástica de importações, diz o comunicado, a indústria Química tem capacidade ociosa suficiente para suprir a demanda doméstica.
“Não há insuficiência estrutural de produção no país. Pelo contrário: a indústria química brasileira opera com níveis críticos de ociosidade. Em 2025, a média alcançou 41%, o pior patamar em 30 anos. Em segmentos de intermediários para plásticos, esse índice chega a 45%. Temos ampla capacidade disponível na produção de resinas termoplásticas (incluindo PE, PP e PVC)”, aponta o texto da entidade.
Instabilidade se mantém
No dia em que a guerra completou dois meses, o impasse continua. O Irã condicionou a reabertura do Estreito de Ormuz ao encerramento do conflito e ao cumprimento de regras de segurança definidas pelo país.
Aos empresários da indústria do plástico resta manter atenção constante aos desdobramentos da guerra no cenário mundial e doméstico, e buscar o apoio de suas entidades representativas.